domingo, 27 de janeiro de 2013

A prestação de serviços que interfere na Ciência


Quando da época da campanha para a escolha dos novos dirigentes (ou a manutenção dos atuais) das universidades federais, como é o caso, agora, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) sempre ouço a mesma ladainha: "Vou examinar bem a proposta dos candidatos e o projeto de universidade. Porém, só voto em quem me deixar trabalhar". É preciso, no entanto, estar bem-preparado para decifrar a mensagem não dita. "Quem me deixa trabalhar" é o candidato que fizer vistas grossas, ou defender abertamente, a "prestação de serviços" por parte da universidade pública brasileira. Incentivados pelo próprio Governo Federal, que há 20 anos não libera verbas de manutenção e custeio, professores, técnicos e até estudantes se viram obrigados a entrar na roda-vida do "capitalismo de estado". Os Grupos de Pesquisas, que, inicialmente, deveriam ser o local do desenvolvimento da pesquisa com o fim de melhorar a vida das pessoas, ou seja da sociedade, transformaram-se em meros escritórios de negócios, dentro das próprias universidades. Ou para concorrer aos editais do Governo e das agências de fomento ou para a prestação de serviços, às vezes aos governos Estadual e Municipal, às vezes às empresas particulares. Ensino, Pesquisa e Extensão, tidos como o tripé da universidade brasileira, passam a existir para servir aos interesses não da coletividade, mas, dos feudos internos (dos dois ou três professores [e professoras] que o comandam). Ao fim desse ciclo de "negociações", o que se tem, efetivamente, é a Ciência completamente contaminada pelas relações incestuosas com o capital. Não sou daqueles chatoxiitas das universidades brasileiras que não aceitam nenhum tipo de financiamento que não seja público. Creio que há alguns tipos de serviços de consultorias e cursos que podem sim, ser prestados pelas universidades. Não creio, porém, que um Relatório de Impacto Ambiental, resultado de um acordo firmado entre uma universidade pública e uma Petrobrás, por exemplo, seja isento. Sem duvidar, em nenhum momento, da honestidade das pessoas que participam desse tipo de serviço, vejo que a Ciência sofre interferência sim. Que os relatos resultados desse tipo de contrato, quer para gasodutos, pontes e estradas, jamais levarão em conta os interesses das comunidades, da sociedade. Serão sempre produzidos com o fim de "ajudar" a empresa (ou o Governo) a obter a licença ambiental que deseja. Por mais otimistas que sejamos, das ações prometidas como fim de mitigar os danos, poucas saem do papel. Tornam-se ornamentos dos tais relatórios. E isso é apenas um dos exemplo de que a Ciência, ou seja, a pesquisa, é contaminada pela prestação de serviços. Uma universidade pública é financiada com recursos públicos. Deveria sim, fazer todo o tipo de acordo com a finalidade de servir os entes públicos e melhorar a vida das pessoas. Quando até o espaço físico das universidades e os recursos públicos são usados apenas para melhorar a vida de determinados professores e professoras talvez possamos entender a luta suja que se instala para se chegar ao poder ou a ele voltar. Precisamos repensar urgentemente o modelo de universidade que aí está. A cada greve o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (ANDES-SN) aponta as contradições do modelo atual. Ao final da greve, quando voltam para as suas atividades e se deparam com o processo de escolha dos dirigentes, professores e professoras parecem esquecer tudo o que discutiram e o modelo que criticaram. Grupos que representam a afirmação do modelo que aí está deveriam ser rifados nas disputas. Curiosamente, são os que mais conseguem votos. Talvez, porque, no fundo, são aqueles que "deixam trabalhar".

Se você ainda não leu a “Carta aberta ao secretário Sérgio Mendonça”, cliquei aqui, leia e replique. Todos precisamos refletir sobre o problema. Juntos!

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